'Podemos atingir alvos a 2.000 km': por dentro da base secreta da Ucrânia que lança drones que matam milhares de soldados da Rússia todos os meses

  • 06/05/2026
(Foto: Reprodução)
Brovdi se alistou para lutar pouco antes da invasão russa BBC "Somos como uma provocação para o inimigo. Porque levamos a guerra ao território deles para que também a sintam", diz o soldado ucraniano, enquanto sua unidade se apressa para montar drones de longo alcance e lançá-los contra a Rússia. A Ucrânia intensificou seus ataques de longo alcance nas últimas semanas, mirando especialmente instalações de exportação de petróleo como nunca antes. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Em uma entrevista rara, o comandante de todos os sistemas não tripulados da Ucrânia disse à BBC que esses ataques vão aumentar e afirmou que as forças dos drones também estão contendo o avanço russo na linha de frente, causando um número recorde de baixas entre seus soldados. "Entre 1.500 e 2.000 km dentro do território russo já não existe a 'retaguarda pacífica'", alerta Robert Brovdi. "O 'pássaro' ucraniano, amante da liberdade, voa para lá quando e para onde bem entender." Na base secreta de lançamento — um campo chuvoso no leste da Ucrânia —, os drones de longo alcance são preparados, e somos instruídos a recuar para uma distância segura. A equipe trabalha rapidamente antes que as forças russas possam detectá-los e lançar mísseis balísticos contra nós. Ouve-se uma ordem a gritos, seguida pelo rugido ensurdecedor de um motor e um clarão branco quando o primeiro dispositivo decola em direção à Rússia, como um pequeno avião a jato. O presidente Volodymyr Zelensky descreve esses ataques de longo alcance como "muito dolorosos" para Moscou, causando perdas "críticas" que chegam a dezenas de bilhões de dólares em seu setor energético, apesar da recente alta nos preços globais do petróleo. O aumento desses ataques se deve, em parte, à tecnologia. Os drones de fabricação nacional estão cada vez mais baratos e voam mais longe: o modelo que vemos decolar agora pode percorrer mais de 1.000 km, e outros já alcançam o dobro dessa distância. Ataque de drones ucranianos causa incêndio em refinaria na Rússia Mas também tem a ver com a concentração de alvos. Além dos militares e das instalações de produção, as exportações de energia da Rússia foram identificadas como um alvo prioritário. "Putin extrai recursos naturais e os transforma em dinheiro manchado de sangue, que depois usa contra nós na forma de drones Shahed e mísseis balísticos", afirma o comandante Brovdi, justificando os ataques. Os moradores de Tuapse, na costa russa do Mar Negro, se queixam de uma "chuva tóxica" após uma segunda onda de ataques em larga escala contra a refinaria local em poucos dias. Mas Brovdi se mantém impassível. "Se as refinarias de petróleo são uma ferramenta para gerar dinheiro que é usado para a guerra, então são um alvo militar legítimo, passível de destruição." Localização secreta O comandante trava uma guerra nos céus a partir de uma localização secreta nas profundezas da terra. Somos levados para conhecê-lo em uma van com vidros fumê, depois descemos umas escadas e caminhamos por corredores repletos de cápsulas para dormir, até chegar a uma caverna de alta tecnologia, coberta por telas do chão ao teto. A trilha sonora é uma sucessão de bipes e sons metálicos, à medida que novos dados são enviados a dezenas de homens vestidos com camisetas e moletons com capuz, curvados sobre controles e teclados. Eles monitoram imagens transmitidas diretamente do campo de batalha por pilotos de drones com nomes como KitKat e Antalya. As Forças de Sistemas Não Tripulados de Brovdi representam apenas 2% do exército ucraniano, mas, segundo ele, são atualmente responsáveis por um terço de todos os alvos destruídos. Sua taxa de baixas, diz, não é segredo: menos de 1% ao ano. Cada ataque, de qualquer tipo, é filmado para verificação e registrado, e nos monitores de uma das paredes aparece um placar detalhado, atualizado em tempo real. Na última semana, Brovdi afirmou ter atingido cerca de uma dezena de oficiais do serviço de segurança russo FSB em território ocupado, além de várias instalações energéticas dentro da própria Rússia. Ele argumenta que suas forças são cruciais para impedir que Putin obtenha vitórias importantes, especialmente em seu objetivo de tomar o restante da região leste de Donbas. "O que ele está fumando?", pergunta Brovdi, de forma seca. "Isso não é realista. É absurdo." De empresário a comandante Quatro anos atrás, Robert Brovdi se sentia mais à vontade em casas de leilão como a Christie's do que nas trincheiras. Naquela época, era um próspero comerciante de grãos, com um hobby paralelo: colecionador de arte. Fragmentos de sua vida antes da guerra sobrevivem nas pinturas e esculturas de artistas ucranianos espalhadas pelo bunker. Elas são exibidas ao lado de cápsulas de mísseis e drones capturados. O centro de comando está repleto de obras de arte, uma referência à vida de Robert Brovdi antes da guerra BBC/Moose Campbell De etnia húngara, ele é natural de Uzhhorod, no oeste da Ucrânia, e é mais conhecido por seu codinome militar: Magyar. Antes da guerra, andava sempre barbeado, mas agora ostenta uma longa barba ruiva já grisalha. Esse empresário se alistou para lutar pouco antes da invasão russa em grande escala — "todos sabíamos que a guerra era inevitável" — e inicialmente se juntou à Defesa Territorial, participando de algumas das batalhas mais intensas, incluindo a de Bakhmut. Mas foi antes disso, preso sob fogo russo em Kherson, que ele vislumbrou pela primeira vez o potencial dos drones. Brovdi lembrou de um dispositivo que havia comprado para seus filhos e começou a introduzir aparelhos semelhantes em sua unidade. De repente, eles conseguiam sobrevoar as posições russas e transmitir imagens ao vivo para uma equipe de artilharia próxima, o que lhes permitiu atacar. "A ideia surgiu inicialmente como um mecanismo de autodefesa", explica ele, "mas transformou o campo de batalha." Em poucos meses, os soldados estavam construindo seus próprios drones e acoplando munição a eles, e logo ficaram famosos como a 414ª Brigada, os Pássaros de Magyar. 'Pássaros e vermes' A estratégia de Brovdi não se baseia apenas em ataques de longo alcance. Ele fala sobre outra prioridade: reduzir a vantagem russa em termos de efetivo. O problema tem se agravado ainda mais para a Ucrânia, que enfrenta dificuldades para mobilizar homens para a linha de frente. "Quem queria lutar já está lutando", reconhece o comandante. Por isso, suas equipes têm ordens diretas de matar a cada mês mais soldados inimigos do que a Rússia consegue recrutar — o que significa mais de 30 mil homens por mês. "30% de todos os ataques com drones devem ser direcionados contra os militares", explica Brovdi. "Pode-se chamar de plano de extermínio, sim — e, neste momento, estamos superando essa meta." Brovdi afirma que vêm cumprindo esse objetivo há quatro meses consecutivos. Este drone pode percorrer mais de 1.000 km; outros vão ainda mais longe BBC/Moose Campbell Não consigo confirmar esses dados, mas ele me garante que seus homens fazem exatamente isso: a morte de cada soldado precisa ser comprovada por vídeo — caso contrário, não é contabilizada. Alguns desses vídeos são exibidos em repetição nas telas do centro de comando, e Brovdi também os publica no Telegram, onde se refere a seus drones como "pássaros" e às forças russas como "vermes", que devem ser caçados e destruídos. "O maior massacre de um inimigo na história da humanidade está acontecendo nesta sala", diz ele em certo momento, apontando para as telas que nos cercam. São palavras brutais, pronunciadas por um homem de voz suave, mas Brovdi se recusa a se deixar "comover pela compaixão". As tropas russas estão muito além de suas fronteiras, enviadas por Putin, "que quer destruir nossa nação", sustenta. "Se não os matarmos, eles nos matarão. Isso é claro." Objetivo: moralidade russa O comandante insiste que não enxerga a realidade com otimismo ingênuo: seu objetivo é a contenção, não lançar novas contraofensivas nem recuperar grandes extensões de território. "Temos uma arma eficaz: não travar uma guerra ofensiva, mas impedir que o inimigo avance com eficiência em nosso território", diz ele. Ele também acredita que Vladimir Putin não pode se dar ao luxo de encerrar sua invasão, porque os riscos de fracasso são grandes demais. Assim, Brovdi tem mais um objetivo: a moral russa. Ele espera que um alto número de baixas, somado aos grandes incêndios em instalações muito distantes da fronteira, possa gerar certa agitação na Rússia. Brovdi busca o fator surpresa. Um vídeo recente, amplamente divulgado na Ucrânia, mostra uma mulher russa em Tuapse chorando desconsoladamente. "Eu só queria viver à beira-mar com meu filho, mas tudo está arruinado… esses drones voam e destroem tudo", soluça entre xingamentos. Para Brovdi, isso é um sinal de que as consequências da invasão russa — e a forte resistência da Ucrânia — podem estar se estendendo para além de seus círculos até então limitados. Seu objetivo, com cada drone, é que mais russos questionem a guerra travada por seu país e o presidente que a iniciou. Informações adicionais de Sophie Williams, Moose Campbell, Volodymyr Lozhko e Anastasia Levchenko.

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/05/06/podemos-atingir-alvos-a-2-000-km-por-dentro-da-base-secreta-da-ucrania-que-lanca-drones-que-matam-milhares-de-soldados-da-russia-todos-os-meses.ghtml


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