Migrações de peixes de água doce estão em colapso, aponta relatório da ONU
24/03/2026
(Foto: Reprodução) A piraíba, um dos maiores peixes de água doce da Amazônia, depende de rios livres para completar suas migrações.
Zeb Hogan.
Algumas das migrações de animais mais longas e importantes do planeta acontecem embaixo d'água e muitas delas estão entrando em colapso rapidamente.
É isso o que aponta uma nova avaliação global lançada nesta terça-feira (24) durante a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS), tratado ambiental da ONU que reúne 132 países e a União Europeia com o objetivo de proteger animais que cruzam fronteiras internacionais ao longo de seus ciclos de vida.
O encontro acontece em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
O relatório estima que as populações de peixes migradores de água doce caíram cerca de 81% desde 1970, tornando esse grupo um dos mais ameaçados do planeta.
O documento identificou 325 espécies que precisam de ação coordenada entre países para sua conservação, além das 24 que já estavam listadas pela convenção.
🐟 Quase todas (97%) as espécies de peixes migradores já listadas pela CMS estão ameaçadas de extinção.
"Esta avaliação mostra que os peixes migradores de água doce estão em sérios apuros e que protegê-los exigirá que os países trabalhem juntos para manter os rios conectados, produtivos e cheios de vida", disse Zeb Hogan, biólogo e autor principal do relatório.
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Uma crise escondida sob a superfície
Segundo a ONU, o relatório, elaborado por especialistas da CMS com base em avaliações da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) de quase 15 mil espécies de peixes de água doce, é a análise mais abrangente já produzida sobre o tema.
O estudo detalha como o modo de vida dessas espécies as torna especialmente vulneráveis. Muitos peixes migradores, por exemplo, dependem de corredores fluviais longos e contínuos, que conectam áreas de reprodução, alimentação e berçários em planícies de inundação, muitas vezes atravessando diferentes países.
🏞️ Quando barragens, alterações no fluxo dos rios ou a degradação do habitat interrompem esses caminhos, as populações entram em queda acelerada.
Justamente por isso, a avaliação destaca que populações de animais que vivem em ecossistemas de água doce estão diminuindo mais rapidamente do que populações de animais terrestres e marinhos.
"Os rios não reconhecem fronteiras — e os peixes que dependem deles também não. A crise que se desenrola sob nossas vias fluviais é muito mais grave do que a maioria das pessoas percebe, e estamos ficando sem tempo", alerta Michele Thieme, vice-presidente do WWF-EUA e uma das autoras do documento.
O taimen (Hucho taimen), um dos maiores salmonídeos do mundo, teve populações reduzidas na Rússia, na Mongólia e na China por pesca excessiva, degradação de habitat e construção de barragens.
Zeb Hogan
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Amazonas e La Plata-Paraná
O relatório também chama atenção para a situação de dois dos principais sistemas fluviais da América do Sul: a bacia Amazônica e o sistema La Plata-Paraná, onde a pressão sobre peixes migradores tem aumentado nos últimos anos.
Na Amazônia, bioma considerado um dos últimos grandes refúgios dessas espécies, o avanço de barragens, a expansão de atividades econômicas e a degradação dos rios já aparecem como ameaças crescentes, ainda segundo a avaliação.
Um estudo ligado ao relatório identificou 20 espécies migradoras que podem entrar em uma lista internacional de proteção, voltada a animais que precisam de ações conjuntas entre países para não desaparecer.
E muitas dessas espécies têm peso direto na economia da região. Na Amazônia, peixes migradores de longa distância respondem por cerca de 93% da pesca e movimentam aproximadamente US$ 436 milhões por ano.
Entre eles está a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), que realiza uma das maiores migrações em água doce já registradas, cerca de 11 mil quilômetros, das nascentes andinas até a foz do Amazonas.
Esse tipo de deslocamento depende de rios livres e conectados, condição cada vez mais rara diante da fragmentação dos cursos d’água.
A mesma dependência aparece em outras espécies, como a piraíba (Brachyplatystoma filamentosum), presente na Amazônia e no Orinoco, e que também sofre com a interrupção desses corredores naturais.
Já na bacia do La Plata, o cenário é semelhante. O relatório aponta que espécies como o surubim (Pseudoplatystoma corruscans) enfrentam pressões combinadas de barragens, alterações no fluxo dos rios e aumento da pesca, o que também tem reduzido suas populações.
Dourado registrado no rio Paraná, onde a espécie tem importância ecológica e econômica para a pesca.
Zeb Hogan
Espécies em risco no mundo
O relatório lista ainda 325 espécies que podem entrar em esquemas de proteção internacional. A maior parte está na Ásia, seguida pela América do Sul, Europa e África.
Entre os casos mais críticos fora da América do Sul estão o esturjão-beluga, do Danúbio e do Mar Cáspio, e o bagre-gigante do Mekong, ambos sob alto risco de extinção.
Na Europa, a enguia-europeia já é considerada criticamente ameaçada, com queda drástica nas populações nas últimas décadas.
Para tentar conter esse declínio, o documento defende medidas como a proteção de rotas de migração, a gestão conjunta da pesca e ações coordenadas entre países que compartilham os mesmos rios.
Segundo a CMS, esse tipo de cooperação é essencial: mais de 250 rios e lagos no mundo cruzam fronteiras, e quase metade do planeta está em bacias hidrográficas compartilhadas.