Ex-funcionário da Anac alertou a agência de que a Voepass reaproveitava peças em seus aviões

  • 09/08/2026
Denúncia exclusiva: ANAC teria sido alertada sobre possíveis irregularidades na manutenção da Voepass antes do desastre que matou 62 pessoas Hoje faz dois anos da queda do 2283 da companhia aérea Voepass em Vinhedo, no interior de São Paulo. As 62 pessoas que estavam a bordo morreram. Na quinta-feira, a Polícia Federal encerrou a investigação das causas do acidente e indiciou 16 pessoas. O Fantástico mostra a denúncia de um ex-funcionário da Anac. Antes do desastre, ele já alertava sobre o reaproveitamento de peças em aviões da empresa. LEIA TAMBÉM: Exclusivo: caixa-preta de avião da Voepass revela piloto admitindo falha no sistema de degelo: 'Essa b** não tá funcionando' 'Informações falsas': presidente da Anac diz que agência foi enganada pela Voepass Setecentos e vinte e oito dias depois, a resposta veio por meio da investigação. O delegado Rodrigo Sanfurgo, superintendente da Polícia Federal em São Paulo, explicou o trabalho realizado: "A Polícia Federal durante esses dois anos se debruçou na análise, nas provas, nas perícias, nos laudos, nos testemunhos, com o objetivo de entender a dinâmica dos fatos. E, ao mesmo tempo, responsabilizar todos que atuaram para que esse acidente ocorresse". Ao todo, 16 pessoas foram indiciadas, entre pilotos, funcionários de terra, gerentes, diretores e o presidente da Voepass. Segundo o delegado da Polícia Federal André Ribeiro, a investigação revelou problemas estruturais na empresa: "A investigação deixa bem claro que há uma cultura de omissões, uma gestão pautada com pressões para não reportar, priorizando o operacional em detrimento da segurança". O voo 2283, que partiu de Cascavel com destino ao Aeroporto de Guarulhos, enfrentou uma frente fria que provocou condições severas de formação de gelo. Especialistas alertam que as asas do modelo ATR têm quase 30 metros e o acúmulo de gelo pode adicionar algumas toneladas ao peso da aeronave. Diálogos extraídos das caixas-pretas revelam a progressão da crise na cabine. Às 12h14, o sistema emitiu um alerta sonoro de detecção de gelo na asa direita. O comandante reconheceu a falha no equipamento de degelo, o "airframe": "É o airframe que deu fault". Ao dizer "airframe", ele se refere ao equipamento que retira gelo das asas. E "fault" significa mau funcionamento. Na sequência, às 12h15, o piloto Danilo Romano desligou o sistema de detecção, afirmando: "Pode tirar, pode tirar, pelo menos a gente já sabe que tá... [com mau funcionamento]". Às 12h17, o comandante brincou: "Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele fusquinha, Herbie lá, Herbie, filme bem antigo". Danilo Romano cita o carro da série "Se meu Fusca falasse", lançada no fim dos anos 1960. Mesmo com alertas de perda de velocidade e falha no sistema de degelo, os pilotos não deixaram a área de formação de gelo, como previa o procedimento. Às 13h20, o copiloto Humberto Alencar avisou: "Bastante gelo". Ele tentou acionar o sistema novamente, dizendo "ligar o airframe", mas o comandante respondeu: "Essa b... não tá funcionando, né?". Às 13h21, a última fala registrada foi do copiloto: "Gelo". Um minuto depois, o avião caiu. A Polícia Federal descobriu que o sistema de degelo falhou em pelo menos 15 vezes antes, mas os defeitos não foram registrados no diário técnico. Se tivessem sido anotados, o avião não poderia ter decolado. Além disso, a aeronave não era homologada para voar em condições de gelo severo, as quais já eram previstas na rota. A investigação agora analisa possíveis falhas da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). "Nós fizemos dois pedidos para a Justiça Federal de Campinas. Um deles que sejam compartilhadas a prova de toda a investigação com a própria Anac. E que encaminhasse cópia pra procuradoria da Republica do Distrito Federal para que seja analisado a possibilidade ou não de atos de improbidade, com eventual crime.", diz o delegado André Ribeiro. Documentos exclusivos revelam que um ex-inspetor da ANAC, exonerado no ano passado após 16 anos de serviço, já alertava sobre problemas na Voepass e alegava perseguição por parte de dirigentes da agência. Em 2019, ele recomendou a suspensão da autorização de voo da MAP Linhas Aéreas (que se fundiu à Passaredo para criar a Voepass), afirmando haver evidências de que peças estavam sendo usadas sem avaliação de aeronavegabilidade. Segundo ele, essa recomendação não foi seguida pela agência. Em 2022, ele alertou que peças de um avião acidentado em Rondonópolis (MT) em 2016 estariam sendo reaproveitadas ilegalmente. Sem providências internas, ele enviou e-mails para órgãos internacionais (FAA e EASA), mas a ANAC desautorizou o inspetor perante essas agências. O inspetor acabou respondendo a um processo interno por insubordinação antes de sua exoneração. Denúncias de prevaricação contra funcionários da ANAC foram arquivadas pelo Ministério Público Federal por falta de provas, mas um processo cível por injúria e difamação continua. A ANAC só cassou a autorização da Voepass em junho de 2025, dez meses depois do acidente. Em nota, a ANAC informou que os achados sobre o avião de Rondonópolis foram analisados e que as peças passaram por checagem conforme as normas. A agência anunciou a abertura de processo interno para verificar responsabilidades de servidores. A Voepass reiterou que a segurança sempre foi prioridade, que seus treinamentos cumprem protocolos e que colabora com as autoridades. O advogado do presidente da empresa, José Luiz Felício Filho, afirmou que ele não atuava na gestão direta na época, mas que havia determinado o cumprimento de protocolos de segurança e, após o acidente, reassumiu a gestão para promover mudanças. Os 16 indiciados podem responder por atentado contra a segurança do transporte aéreo e falsidade ideológica. Segundo o delegado André, a exposição ao perigo é agravada pela queda e pelas mortes, podendo resultar em penas altas: "A exposição a perigo já é crime, já possui uma pena que é agravada quando há uma queda; se torna uma pena alta, de 4 a 12 anos. E o evento morte faz a pena ser aplicada em dobro". GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo

FONTE: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/08/09/denuncia-exclusiva-anac-teria-sido-alertada-sobre-possiveis-irregularidades-na-manutencao-da-voepass-antes-de-desastre.ghtml


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