Escola condenada, diretores absolvidos, pai obstinado: morte de jovem em excursão escolar vira mistério de mais de uma década

  • 28/02/2026
(Foto: Reprodução)
Victoria Natalini tinha 17 anos quando foi encontrada morta em fazenda Reprodução / Facebook Há mais de uma década, a morte da estudante Victoria Mafra Natalini, de 17 anos, é um caso sem conclusão na Polícia Civil de São Paulo. Ninguém foi preso. As autoridades policiais nunca concluíram a investigação e por diversas vezes questionaram se ela realmente foi vítima de um crime. A jovem desapareceu e foi encontrada morta durante uma excursão escolar em uma fazenda em Itatiba, no interior de São Paulo, em setembro de 2015. A família de Victoria alega que a investigação do caso teve inúmeras falhas, como demora para a realização de perícias e diversas trocas de equipes. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirma que trabalha rigorosamente para esclarecer o caso. Mas a pasta não dá detalhes sobre a investigação, que chegou a ser arquivada, foi reaberta no ano passado e tramita sob segredo de Justiça, por se tratar da morte de uma adolescente. No início deste mês, o caso voltou a ser notícia após o Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenar a Escola Waldorf Rudolf Steiner, responsável pela excursão na qual a jovem morreu, a pagar indenização de danos morais de R$ 1 milhão ao pai de Victoria. "Nenhum valor traz minha filha de volta, mas a decisão foi importante porque reconheceu oficialmente a responsabilidade na sucessão grotesca de erros cometidos e a flagrante falha da escola no dever de cuidado. Não fosse a conduta da instituição naquele contexto, minha filha estaria comigo hoje”, afirma o pai de Victoria, o engenheiro mecânico João Carlos Natalini, ao g1. A decisão do STJ apontou que a morte da jovem não foi um acidente. Para os ministros, houve uma “sucessão de falhas assombrosas” sob responsabilidade da escola no período em que a adolescente estava sob os cuidados da unidade de ensino. Já no âmbito criminal, dois professores e três gestores da escola se tornaram réus em setembro de 2023 por abandono de incapaz, em razão de apontamentos da Polícia Civil de que teriam sido omissos e negligentes em relação à excursão escolar. Em agosto passado, segundo o g1 apurou, os funcionários da escola foram absolvidos de forma sumária – quando uma decisão judicial ocorre logo no início do processo –, sob a argumentação de que não havia elementos para afirmar que eles cometeram o crime de abandono de incapaz. A família de Victoria recorreu da decisão do âmbito criminal e aguarda análise do recurso. “Isso não é coerência. As mesmas pessoas apontadas como responsáveis pelas falhas no dever de proteção reconhecidas pelo STJ — aquelas que tinham a obrigação de garantir a segurança dos alunos — foram absolvidas na esfera criminal de forma sumária”, critica o pai da jovem. Victória e o pai, o engenheiro mecânico João Carlos Natalini Reprodução A morte da adolescente Victoria morreu enquanto fazia um trabalho extracurricular com outros alunos da Escola Waldorf Rudolf Steiner na Fazenda Pereiras, em Itatiba, no interior de São Paulo, em setembro de 2015. Os alunos ficariam uma semana na propriedade rural. Por volta das 14h30 do quinto dia, enquanto fazia uma atividade coletiva, a jovem foi sozinha ao banheiro e desapareceu. Cerca de duas horas depois, os colegas de grupo estranharam que ela não havia retornado e procuraram os professores. Os alunos e funcionários da fazenda e da escola chegaram a procurar pela jovem, mas não a localizaram. Eles ligaram para a Defesa Civil, que deu início a buscas pela adolescente. Por volta das 8h do dia seguinte, o helicóptero da Polícia Militar de São Paulo encontrou o corpo de Victoria no entorno da fazenda. No corpo da jovem não havia lesão aparente ou qualquer outro indício evidente de que Victoria havia sido vítima de um crime, segundo a investigação. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Pouco após a morte, um laudo emitido pelo Instituto Médico Legal (IML) de Jundiaí (SP) apontou “causa indeterminada, sugestiva de morte natural” e descartou que ela tenha sido vítima de qualquer tipo de violência. Segundo os exames, Victoria não havia usado drogas nem ingerido bebida alcoólica. O pai da jovem decidiu fazer uma investigação própria e contratou especialistas. Para ele, não havia chance de a filha ter morrido de causa natural. Um fato que havia levantado desconfiança era a forma como o corpo dela foi encontrado: de bruços e com os braços entrelaçados. Para João, isso representava que provavelmente alguém havia mexido no corpo. Além disso, a adolescente foi encontrada em um lugar distante do percurso entre o local que os alunos estavam e a sede da fazenda, trajeto que a adolescente deveria ter feito para ir ao banheiro. Fazenda em Itatiba, no interior de São Paulo Reprodução/TV Globo O laudo particular apontou que a jovem teria sido vítima de homicídio. O pai dela apresentou a apuração para a polícia, que reavaliou o caso e o encaminhou ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de São Paulo. O DHPP pediu um novo laudo ao Centro de Perícias da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo. Essa nova análise confirmou que a aluna morreu por "asfixia mecânica, na modalidade de sufocação direta". Essa nova apuração, meses após o crime, indicou que a jovem pode ter sido assassinada. Isso porque esse tipo de sufocação, apontam especialistas, costuma ser feita pelas mãos, o que pode indicar que uma pessoa atacou a jovem. O pai de Victoria acredita que ela foi atacada e sufocada até a morte, enquanto tentava seguir para a sede da fazenda, e teve o corpo levado para outro local. Mesmo com os novos elementos, as autoridades policiais não chegaram a uma conclusão. Em 2023, o caso foi arquivado pelo Ministério Público de São Paulo porque a Polícia Civil apontou que não havia como determinar a causa da morte, muito menos se ela havia sido assassinada. O pai de Victoria critica a conduta do caso nos últimos 10 anos. “Ao longo desses anos houve falhas graves na condução do inquérito, erros técnicos, demora na realização de perícias importantes e sucessivas trocas de equipes. O que nos prejudicou muito”, afirma. Percurso entre o local que o grupo estava e o alojamento em que seria o banheiro; no outro ponto, o local onde o corpo foi encontrado Reprodução/TV Globo Procurada pelo g1, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo não se pronunciou especificamente sobre as alegações do pai da adolescente. Em junho de 2025, após insistência da família, o DHPP entendeu que a investigação do caso deixou de ouvir testemunhas importantes e que havia mais apurações a serem feitas sobre o caso. Em nota à reportagem, a Polícia Civil de São Paulo informa que voltou a considerar o caso como homicídio. “Em 2025, os autos retornaram à unidade para o prosseguimento das diligências voltadas à apuração da autoria do homicídio. A Polícia Civil reforça que, desde o início, a investigação tem observado rigorosamente os procedimentos previstos no Código de Processo Penal, com o objetivo de assegurar o completo esclarecimento dos fatos. O caso tramita sob segredo de Justiça”, diz o comunicado da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. A polícia não informa se há algum suspeito do crime. A espera por resposta O pai da adolescente defende que a investigação precisa continuar para que o caso seja concluído. “O que se espera agora é que esse material seja analisado com a seriedade necessária para que quem matou a minha filha responda por isso”, diz João ao g1. “Já se sabe que foi homicídio. Já se sabe que não foi causa natural. Já se sabe que houve ação de terceiro. O que ainda falta? Eu também não sei! Como pai, é impossível não sentir revolta diante disso”, acrescenta. Adolescente morreu em setembro de 2015 Reprodução ‘Dor profunda’ Em nota ao g1, a Escola Waldorf Rudolf Steiner diz que a morte de Victoria “permanece como uma dor profunda para toda a comunidade” e afirma que desde o primeiro momento esteve à disposição das autoridades e colaborou com todas as etapas das investigações, por meio das informações solicitadas. “A instituição entende que o esclarecimento pleno dos fatos é essencial não apenas para a família, mas para todos que foram impactados por essa tragédia, e reafirma seu compromisso com a busca da verdade e com o respeito à memória de Victoria”, diz o comunicado. A unidade de ensino afirma que seguiu todos os protocolos de segurança aplicáveis à atividade de campo em que a jovem morreu, com o número de profissionais adequados “em conformidade com as diretrizes previstas para atividades realizadas fora do ambiente escolar”. Procurada pelo g1, a Fazenda Pereiras não respondeu.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/02/28/escola-condenada-diretores-absolvidos-pai-obstinado-morte-de-jovem-em-excursao-escolar-vira-misterio-de-mais-de-uma-decada.ghtml


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